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    Câmbio e renda fixa

    Treasury a 3,5% é pouco? Depende do que o câmbio fizer

    Comparar CDI com renda fixa americana é comparar taxas em moedas diferentes.

    Escrito por Ivan Fuganti e Felipe Bulgacov · CFP®, CFG, Consultores CVM
    Revisão de compliance por Daniel Braz · Sócio e Diretor de Risco, Compliance, Controles Internos e PLD/FT · OAB/PR 94.134, CPA-20
    8 min

    Um título do Tesouro americano paga 3,5% ao ano. Um no Brasil paga 14%.

    A conta parece resolvida. E está errada — porque os dois números não estão na mesma moeda.

    O que 3,5% em dólar realmente significa

    Comparar 3,5% com 14% é como comparar uma distância em quilômetros com outra em milhas sem converter. As taxas remuneram moedas diferentes, e o resultado final para quem vive no Brasil depende de duas coisas: quanto o investimento rendeu na moeda dele e o que a moeda fez contra o real.

    Um investimento que rende 3,5% ao ano em dólar, num período em que o dólar sobe 8% ao ano, entrega algo em torno de 11,8% ao ano em reais. O mesmo investimento, num período em que o dólar cai, pode entregar menos que a poupança.

    O rendimento em dólar é a parte previsível. O câmbio é a parte que decide.

    A pergunta certa

    Em vez de perguntar qual taxa é maior, a pergunta útil é outra:

    Quanto um investimento em dólar precisaria render, ao ano, para empatar com o CDI?

    Essa taxa existe e pode ser calculada para qualquer período. Ela combina o CDI acumulado em reais com a variação do câmbio no mesmo intervalo, e devolve um número único: o rendimento anual em dólar que teria produzido o mesmo resultado final.

    Se esse número for maior que o que a renda fixa americana pagava, o CDI venceu. Se for menor, o dólar venceu.

    O que os dados mostram

    O interativo abaixo usa as séries oficiais do Banco Central desde julho de 1994, o mês em que o real passou a existir. Mova o controle para a taxa que você imagina obter em dólar e veja em quais períodos ela teria bastado.

    Por que a data de início muda tudo

    Repare no gráfico das janelas móveis: a taxa necessária oscila muito conforme o mês de partida.

    Isso não é ruído. É a natureza do problema.

    A janela de quinze anos encerrada agora começa em agosto de 2011, quando o dólar valia cerca de R$ 1,59 — o ponto mais baixo daquela década. Partindo de um câmbio historicamente barato, a valorização subsequente foi enorme, e a taxa necessária para empatar com o CDI despenca.

    Escolha outro mês de partida e o resultado muda de figura.

    É por isso que este artigo não apresenta quatro períodos escolhidos, e sim todas as janelas possíveis desde o Plano Real. Uma conclusão que só vale para uma data de início não é uma conclusão.

    O que isso não diz

    Não são números líquidos. Não há imposto de renda, de remessa, nem custo de corretagem. Os três existem, incidem nos dois lados e mudam o resultado.

    Não são riscos equivalentes. O CDI remunera aplicações em reais no sistema financeiro brasileiro. Um título do Tesouro americano tem risco de crédito soberano dos Estados Unidos e, se vendido antes do vencimento, risco de . São perfis diferentes de risco, não apenas de retorno.

    Não é previsão. Nada no comportamento passado do câmbio indica o que ele fará. A distribuição de janelas mostra a variedade de resultados que já ocorreram — não a probabilidade dos próximos.

    O que fazer com isso

    A conclusão prática não é “invista fora” nem “fique no CDI”.

    É que a taxa nominal em dólar, sozinha, não informa nada sobre o resultado em reais. Quem compara 3,5% com 14% e conclui que o Brasil paga mais está tomando uma decisão de câmbio sem perceber.

    Investir no exterior é, antes de tudo, uma decisão sobre exposição cambial. O rendimento do ativo é secundário diante disso. A pergunta que antecede a escolha do título não é quanto ele paga, e sim quanto do seu patrimônio faz sentido estar em outra moeda — dado onde você vive, em que moeda estão suas despesas e quais são seus compromissos futuros.

    Essa pergunta não se responde com uma taxa.

    Conteúdo informativo, sem caráter de recomendação de investimento. Rentabilidade passada não representa garantia de rentabilidade futura. Valores brutos, sem impostos e custos.

    Perguntas frequentes

    Porque remuneram moedas diferentes. O resultado em reais de um investimento em dólar depende do rendimento na moeda e da variação cambial no período.

    É o rendimento anual em dólar que, combinado com a variação do câmbio no período, teria produzido o mesmo resultado final do CDI.

    Não. São valores brutos, sem imposto de renda, IOF, spread de câmbio ou custos. Todos existem e incidem nos dois lados.

    Do Banco Central: CDI acumulado no mês (série 4391) e dólar PTAX venda (série 1), desde julho de 1994.

    Não. Mostra o que já aconteceu em cada período. Comportamento passado do câmbio não indica comportamento futuro.