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    Renda fixa

    Marcação a mercado: por que um título seguro aparece no vermelho

    O título não mudou. O contrato não mudou. O vencimento não mudou. O que mudou foi o preço que outra pessoa pagaria hoje para ficar no seu lugar.

    Atualizado em agosto de 202611 min de leitura

    Você compra um Tesouro IPCA+ com vencimento em 2031. Contrata IPCA + 6,30% ao ano e aplica R$ 3.238 por título. O que está travado é o ganho acima da inflação — o valor em reais que você vai receber depende do IPCA que correr até lá.

    Um ano depois, abre o extrato e vê o saldo abaixo do que aplicou. Nada quebrou. O emissor é o mesmo, o cupom é o mesmo, a data de vencimento é a mesma. O que apareceu no extrato foi a marcação a mercado: a obrigação de reportar, todo dia, o preço pelo qual aquele título seria vendido naquele dia.

    Marcação a mercado não é uma perda. Também não é um detalhe contábil sem consequência. É uma informação — e ela só vira prejuízo de um jeito: vendendo antes do vencimento.

    O mecanismo, em uma linha

    Um título de renda fixa promete um valor futuro conhecido. O preço de hoje é esse valor futuro trazido a valor presente por uma taxa. Se a taxa que o mercado exige sobe, o mesmo valor futuro passa a valer menos hoje.

    Taxa e preço andam em direções opostas. Sempre. Não é opinião de mercado, é a mesma equação lida de dois lados.

    Quem contratou IPCA + 6,30% e vê o mesmo título sendo negociado a IPCA + 8,25% está diante de um comprador que exige desconto: ele não aceita um papel que paga menos do que o que está na prateleira. Esse desconto é o vermelho do extrato.

    Fig. 1 — Cinco anos de um mesmo título, da compra ao vencimento
    3.0303.5634.0964.6295.1625.695ago/26fev/27ago/27fev/28ago/28fev/29ago/29fev/30ago/30fev/31ago/31COMPRAVENCIMENTO

    Simulação de um título IPCA+ de 5 anos. A trajetória de taxa é ilustrativa; os preços são calculados pela fórmula da NTN-B Principal (VNA ÷ (1+taxa)^prazo). A aba Descolamento mostra a mesma informação sem a tendência de crescimento do preço, que na escala em reais esconde a oscilação.

    Compraago/26
    Preço de mercadoR$ 3.241,80
    Preço na curva (contratado)R$ 3.241,80
    Diferença+R$ 0,00 (+0.00%)
    TaxaPreço

    A taxa oscila até o último dia — e mesmo assim as duas linhas terminam no mesmo ponto. Passe o mouse ou arraste o dedo sobre o gráfico.

    As duas contabilidades do mesmo título

    A linha tracejada dourada tem nome de mercado: é o preço na curva. Ela mostra quanto o título vale se você simplesmente acumular a taxa que contratou, dia após dia, ignorando o que o mercado está negociando. Não é uma abstração — é assim que CDBs, LCIs e LCAs costumam aparecer no seu extrato, e é por isso que esses papéis parecem não oscilar.

    Ou seja: o mesmo título tem dois preços legítimos ao mesmo tempo. Na curva, o que você contratou. A mercado, o que alguém pagaria hoje. A diferença entre os dois é o assunto deste artigo — e ela não é opinião de ninguém, é a taxa de hoje comparada com a taxa que você travou.

    Repare no que acontece: as duas linhas partem do mesmo ponto e chegam ao mesmo ponto. No meio do caminho elas se afastam, se cruzam, se afastam de novo. No dia do vencimento, a diferença é zero. Obrigatoriamente — porque no vencimento o preço deixa de ser negociação e passa a ser o valor de resgate.

    Repare também no que não acontece: a oscilação não some perto do fim. A taxa continua se mexendo no último mês igual se mexia no primeiro. O que encolhe não é a volatilidade da taxa — é o prazo sobre o qual ela age. Menos tempo restante, menos efeito no preço.

    A distinção que importa

    Oscilação é o preço se afastar da curva e voltar. Perda permanente é o capital não voltar — por default do emissor ou por venda antecipada com desconto. Confundir as duas é o erro que transforma volatilidade em prejuízo.

    No exemplo do gráfico, o pior momento é o mês 12: o título negocia 7,0% abaixo da curva. Vinte meses depois, negocia 2,6% acima dela.

    A tentação, no mês 12, é vender e recomprar à taxa nova, que está mais alta. Só que a taxa nova já está dentro do preço que você recebeu na venda: você vende a R$ 3.349,56 e recompra o mesmo papel a R$ 3.349,56. Não existe prêmio a capturar trocando um título por ele mesmo — existe apenas o spread da operação saindo do seu bolso duas vezes.

    Quanto o preço se move: a duration

    A sensibilidade do preço à taxa não é a mesma para todo título. Ela depende de quanto tempo falta até o vencimento. Um papel de dois anos mal se mexe. Um papel de vinte anos se move muito.

    A regra de bolso: para cada 1 ponto percentual de alta na taxa, o preço cai aproximadamente o equivalente à duration em anos. Por isso o título de cinco anos do gráfico oscila numa faixa estreita — um 2045 submetido à mesma variação de taxa cairia várias vezes mais.

    Simulador: impacto de um choque de taxa

    Cálculo exato pela relação de valor presente, sem aproximação linear.

    Anos até o vencimento5 anos
    Taxa real contratada (IPCA + )IPCA + 6,30% a.a.
    Variação da taxa real de mercado+2,0 p.p.

    A taxa de mercado passa de IPCA + 6,30% para IPCA + 8,30%.

    R$
    Efeito imediato no preço8,90%
    Efeito sobre o valor aplicadoR$ 44.494,06

    Arraste o prazo de 5 para 30 anos mantendo o mesmo choque de taxa. O risco de crédito não mudou. O risco de preço, sim — e é isso que separa um título curto de um longo do mesmo emissor.

    Quando a marcação deixa de ser informação e vira decisão

    Quando o dinheiro tem data

    Se o recurso vai ser usado antes do vencimento do papel, a marcação deixa de ser oscilação: é o preço real da sua saída. Prazo do dinheiro e prazo do título precisam conversar.

    Quando o título é a garantia de alguma coisa

    Papel dado em garantia é reavaliado a mercado. Uma queda de preço pode acionar chamada de margem — e a venda deixa de ser opcional.

    Quando existe um destino melhor — e não apenas uma taxa maior

    Trocar de papel só faz sentido quando o destino é genuinamente diferente: outro emissor, outro prazo, outro regime tributário. Um CRA isento pagando bem acima do que o seu Tesouro paga é um destino. O mesmo Tesouro à taxa do dia não é — ali você está apenas pagando corretagem para continuar onde estava.

    E a conta precisa incluir uma coisa que quase ninguém lembra: você pode estar abaixo da curva e ainda assim pagar imposto. No mês 12 do gráfico, o título comprado a R$ 3.241,80 vale R$ 3.349,56. São 7% abaixo da curva e, ao mesmo tempo, R$ 107,76 de ganho nominal — tributável a 17,5% na faixa de 361 a 720 dias. Marcação e apuração de IR são réguas diferentes, e só a segunda gera DARF.

    Quando a perda não vira crédito nenhum

    Em renda variável, o prejuízo realizado é carregado para frente e abate ganhos futuros de mesma natureza. Em renda fixa, não. O imposto incide na fonte sobre a diferença positiva de cada operação, isoladamente: se não houve ganho, não há imposto — mas a perda também não gera crédito para compensar coisa alguma.

    É uma assimetria que costuma passar em branco e que joga contra a venda antecipada. Realizar a perda em renda fixa não compra nenhum benefício fiscal futuro. Só encerra a chance de a diferença se fechar sozinha até o vencimento.

    O que fazer com o extrato vermelho

    Nada, na maioria dos casos. Essa é a resposta desconfortável e correta.

    O que muda é a pergunta que você faz antes de comprar. Não “quanto isso rende”, mas: por quanto tempo esse dinheiro pode ficar parado, e qual é o preço da minha desistência. Um IPCA+ 2045 na carteira de quem precisa do recurso em três anos não é um investimento conservador. É uma aposta direcional em juros com fantasia de renda fixa.

    O erro não está na oscilação. O erro está em comprar prazo que você não tem.

    Compare o rendimento líquido antes de escolher o prazo

    A calculadora CDB × LCI mostra o efeito da tabela regressiva de IR e dos degraus de 180, 360 e 720 dias sobre o retorno final.

    Abrir a calculadora

    Conteúdo de caráter exclusivamente informativo. Não constitui oferta nem recomendação de investimento. Investimentos envolvem riscos.

    Perguntas frequentes

    Dúvidas frequentes sobre marcação a mercado, curva do papel e prazo.