Renda fixa
ETF de renda fixa: quem decide o seu imposto é a carteira, não você
Em qualquer outro produto de renda fixa, a alíquota cai conforme você espera. No ETF, não. Ela já estava definida antes de você comprar — e não tem relação com o seu prazo, e sim com o prazo dos títulos que existem lá dentro.
O que você compra quando compra a cota
ETF é a sigla de Exchange Traded Fund: um fundo cujas cotas são negociadas em bolsa. Você compra pelo home broker, digitando um ticker, como faria com uma ação. O que existe dentro daquela cota, porém, é uma carteira de títulos.
Nos ETFs de renda fixa essa carteira pode conter LFTs, NTN-Bs, debêntures, letras financeiras ou papéis emitidos no exterior. Em vez de escolher e negociar cada título separadamente, você acessa uma cesta inteira em uma única ordem.
Quase todos seguem um índice. É o índice que define quais títulos são elegíveis, com que peso e sob quais regras de rebalanceamento. Antes de comparar tickers, portanto, a pergunta é o que cada índice se propõe a representar.
O ticker é a embalagem. O índice é o contrato.
E é por isso que a etiqueta “renda fixa” diz pouco. Um ETF de Tesouro Selic oscila quase nada. Um ETF de NTN-B 2060 pode se mover como ativo de risco quando o juro real muda. Um ETF de debêntures acrescenta risco de crédito. Um ETF internacional pode carregar câmbio por cima de tudo isso.
Cinco perguntas resolvem a maior parte da análise:
- Qual índice o fundo acompanha?
- Quais títulos formam a carteira?
- Qual a duration, ou seja, a sensibilidade a juros?
- Existe risco de crédito ou de câmbio além do risco de mercado?
- Qual o custo total para entrar, ficar e sair?
A regra que inverte o que você aprendeu sobre renda fixa
Todo investidor brasileiro carrega um reflexo: segurar o papel por mais de dois anos para a alíquota cair a 15%. Em CDB, em Tesouro Direto, em LC, funciona assim — 22,5% até 180 dias, 20% até 360, 17,5% até 720 e 15% depois disso. A régua é o seu tempo.
No ETF de renda fixa a régua é outra. A alíquota depende do prazo médio de repactuação da carteira do fundo:
| Prazo médio de repactuação da carteira | Alíquota |
|---|---|
| Até 180 dias | 25% |
| De 181 a 720 dias | 20% |
| Acima de 720 dias | 15% |
Repactuação é o momento em que um título deixa a carteira e outro entra — em geral, no vencimento. As faixas vêm da Lei nº 13.043/2014; a forma de apurar o prazo médio vem da Portaria MF nº 163, de 2016. Guarde essa portaria: ela reaparece adiante e é a peça que decide tudo.
O imposto é retido na fonte na venda das cotas, é definitivo e não exige DARF. Não há come-cotas. E, principalmente: o seu prazo de permanência não entra na conta em nenhum momento.
O resultado desconfortável
Se a alíquota vem da carteira, ela já estava decidida quando você comprou. Quem vende em três semanas paga a mesma coisa que quem segura cinco anos.
Isso produz uma inversão que quase ninguém enuncia: o ETF mais conservador da prateleira é o que paga mais imposto. Um fundo 100% Tesouro Selic tem prazo médio curto, logo alíquota de 25% — em qualquer horizonte.
Percentual do ganho que fica com o investidor
| Horizonte | Título direto | ETF com PMR ≤ 180d | ETF com PMR > 720d |
|---|---|---|---|
| Até 180 dias | 77,5% | 75,0% | 85,0% |
| 181 a 360 dias | 80,0% | 75,0% | 85,0% |
| 361 a 720 dias | 82,5% | 75,0% | 85,0% |
| Acima de 720 dias | 85,0% | 75,0% | 85,0% |
Leia as duas colunas da direita: são linhas retas. A do investidor desce em degraus; a do ETF não desce nunca.
Disso saem duas conclusões simétricas. O ETF de pós-fixado puro perde para o título direto em todos os prazos, e a desvantagem cresce de 2,5 até 10 pontos percentuais do ganho conforme você segura mais tempo. O ETF com prazo médio longo, ao contrário, entrega 85% do ganho desde o primeiro dia — empata com o melhor caso do título direto sem exigir a espera de dois anos.
Você não escolhe a sua alíquota. Você escolhe um fundo que já tem uma.
Faixas conforme a Lei nº 13.043/2014 para ETFs de renda fixa e a tabela regressiva aplicável a CDB e Tesouro Direto. Simulação simplificada: considera apenas o imposto de renda, sem custos, taxas ou IOF.
A régua do investidor desce, a do ETF não
O título direto vai perdendo alíquota conforme você espera. As duas linhas de ETF continuam exatamente onde estavam — porque o prazo que conta é o da carteira, não o seu.
Passe o mouse ou arraste o dedo sobre o gráfico. Uma linha desce em degraus; duas são retas.
A engenharia fiscal, e o caso que provou que ela é frágil
Uma regra que premia carteiras longas cria um incentivo previsível: montar carteiras que cruzem os 720 dias. O mercado brasileiro tem um caso concreto disso, com começo, meio e fim.
Em novembro de 2022 foi lançado um ETF de Tesouro Selic anunciando alíquota de 15%, com o argumento de que o prazo médio de repactuação da carteira superava 720 dias. Analistas questionaram a interpretação, apontando que a Portaria MF nº 163/2016 manda considerar, para títulos de taxa flutuante, o prazo de repactuação da taxa — e não o vencimento do papel.
Em fevereiro de 2024 a Secretaria do Tesouro Nacional encerrou a discussão: a Selic é apurada diariamente, logo carteiras lastreadas em Tesouro Selic têm prazo de repactuação de um dia. O administrador do fundo publicou fato relevante confirmando o reenquadramento. A alíquota passou de 15% para 25%.
Enquadramento tributário de ETF não é atributo permanente do produto. É consequência de uma carteira, apurada segundo uma metodologia, e as duas podem mudar. Quem comprou contando com 15% terminou em 25% sem ter feito nada.
A resposta da indústria veio na forma de produto. Em novembro de 2024 foi lançado um ETF com carteira mista: 91,26% em LFT e 8,74% em NTN-B 2060. A parcela longa puxa o prazo médio da carteira para 758 dias — trinta e oito dias acima do limite legal — e trava a alíquota em 15%.
A construção é pública, está no regulamento e é perfeitamente legítima. Só que o investidor comprou um produto apresentado como caixa e levou, junto, uma coisa que não estava no nome.
Duration: o preço da alíquota menor
Duration não é prazo de vencimento. É medida de sensibilidade do preço à taxa. Como aproximação de primeira ordem, um ativo com duration 7 perde perto de 7% se a taxa subir 1 ponto percentual, e ganha valor semelhante se ela cair.
Aplique isso à carteira da seção anterior. Uma NTN-B 2060 tem duration modificada perto de 13 anos. Com peso de 8,74%, o fundo inteiro fica com duration combinada de aproximadamente 1,15 ano. Parece pouco. Em um produto de caixa, não é. Os números abaixo, e o simulador que vem em seguido, usam duration modificada de 13,2 anos para a NTN-B.
- Choque de +1 p.p. na taxa real: −1,15%, ou R$ 1.154 sobre R$ 100 mil
- Choque de +2 p.p.: −2,31%, ou R$ 2.307
- Choque de +3 p.p.: −3,46%, ou R$ 3.461
E a economia fiscal, sobre um retorno bruto de 14,5% ao ano, é de 1,45 ponto percentual. Ou seja: uma abertura de 1,26 ponto na taxa real consome um ano inteiro da vantagem tributária.
O veredito, que não é o esperado
Na maioria dos cenários a troca compensa. A economia fiscal é recorrente e a marcação é pontual, tende a reverter e some no vencimento dos títulos. Quem fica alguns anos provavelmente sai ganhando.
O problema não é a troca. É não saber que ela foi feita.
Um produto de caixa com um ano de duration continua sendo melhor que a alternativa na conta de vários anos. Só não é caixa.
Quem precisa do dinheiro num trimestre específico, ou usa o papel como reserva para chamada de margem, está sujeito a sacar exatamente no mês em que a marcação está negativa. Aí a economia tributária de dois anos vira prejuízo realizado em uma semana. É o mesmo mecanismo tratado em marcação a mercado, agora escondido dentro de um produto que não se apresenta como sensível a juros.
Simulador: a troca entre imposto e duration
Mova o peso da NTN-B longa e veja as duas consequências se moverem em direções opostas.
O que a carteira paga de imposto
O que a carteira paga de oscilação
A troca está feita
A carteira comprou a alíquota de 15% pagando com duration. Na conta de vários anos costuma compensar, porque a economia se repete todo ano e a marcação tende a reverter. O risco não está na média: está em precisar sacar no trimestre errado.
Estimativa educacional de primeira ordem. Não considera carrego, convexidade, passagem do tempo, custos, taxa de administração nem rebalanceamentos. O prazo médio real é apurado pelo próprio fundo segundo a Portaria MF nº 163/2016, e pode divergir desta aproximação. Não é projeção de rentabilidade nem recomendação de produto.
Liquidez: o volume da tela não é a liquidez
O volume negociado de muitos ETFs de renda fixa parece baixo perto do de um ETF de ações popular. A conclusão intuitiva — de que será difícil vender — está frequentemente errada, e o motivo é estrutural.
ETFs têm um mecanismo que ações não têm. Participantes autorizados podem criar cotas novas entregando os títulos da carteira, ou resgatar cotas recebendo títulos de volta. Quando o preço da cota se afasta do valor dos ativos que ela representa, essa operação vira arbitragem e empurra os dois de volta para perto.
Na prática, a liquidez potencial do ETF é herdada dos ativos subjacentes. Uma carteira de títulos públicos federais — entre os ativos mais líquidos do país — sustenta ordens muito maiores do que o volume de tela sugere. Uma carteira de crédito privado pouco negociado, não.
Antes de executar, observe:
- a diferença entre a melhor compra e a melhor venda, o spread
- a profundidade do livro de ofertas
- a liquidez dos títulos que formam a carteira
- a existência e o horário de atuação do formador de mercado
- o tamanho da sua ordem em relação às ofertas disponíveis
- a distância entre o preço de tela e o valor indicativo da cota
Para ordens relevantes, ordem limitada em vez de ordem a mercado. Ordem a mercado num livro raso aceita o preço que houver.
Cota do ETF
Representa uma fração do patrimônio do fundo. Seu preço na tela pode se afastar temporariamente do valor dos títulos que ela representa.
Clique em qualquer etapa do diagrama para ler o que ela faz.
O mecanismo de criação e resgate é o que diferencia um ETF de uma ação. Ele não elimina o custo de negociar: spread, profundidade do livro e horário do formador de mercado continuam valendo para a sua ordem.
Quando o ETF não é o instrumento
Não há FGC
ETF é fundo; cota de fundo não tem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. O risco é o dos ativos da carteira — o que, num fundo de títulos públicos, é diferente de num fundo de debêntures.
A maioria não tem data de devolução do principal
A carteira é renovada continuamente para seguir o índice: títulos vencem, saem, são substituídos, e o fundo continua existindo. Olhar a taxa média da carteira e tratá-la como rentabilidade garantida até uma data é erro de leitura. Para sair, você vende cotas ao preço daquele dia. Existem ETFs com vencimento-alvo, em que a lógica se aproxima de uma meta de prazo — e esses precisam ser lidos individualmente, no regulamento.
A perda não gera crédito
Como o imposto é retido na fonte e definitivo, prejuízo realizado em ETF de renda fixa não vira abatimento para compensar ganho futuro, ao contrário do que acontece em renda variável. A assimetria joga contra a venda em momento ruim.
E não existe melhor ETF
Existe produto mais ou menos coerente com a função daquele dinheiro dentro da carteira. Quando o recurso precisa de data certa, de fluxo específico de pagamentos, de garantia do FGC ou de oscilação próxima de zero, o instrumento provavelmente é outro.
- Entendo o índice e sei quais títulos formam a carteira
- Sei se a exposição é pós-fixada, prefixada, inflação, crédito ou internacional
- Conheço a duration aproximada e o que ela significa em queda de preço
- Sei se há risco de crédito e qual a concentração por emissor
- Verifiquei se há exposição cambial ou proteção
- Comparei taxa de administração, aderência ao índice e spread — não só a taxa
- Confirmei o enquadramento tributário atual no regulamento, não no apelido do produto
- Minha necessidade de liquidez cabe no prazo e no livro de ofertas deste papel
- O produto tem função definida na minha Política de Investimentos
ETFs simplificam a carteira. A análise que vem antes da compra continua sofisticada.
A prateleira, em uma tabela
A B3 tem hoje dezenas de ETFs de renda fixa, e a prateleira cresce todo trimestre. A tabela abaixo organiza os que estão mapeados por categoria — pós-fixado, letras financeiras, inflação curta e longa, vencimento-alvo, prefixado, crédito privado e internacional.
Use-a para localizar e comparar, não para escolher. A coluna que mais importa, a faixa de imposto de renda, é justamente a que menos aparece nos materiais de divulgação — e é a que você precisa confirmar no regulamento antes de comprar. É por isso que ela aparece aqui como “não informado” na maior parte das linhas: preencher por dedução seria repetir o erro que este artigo inteiro tenta desfazer.
Os ETFs de renda fixa listados na B3
Compilação de agosto de 2026, organizada por categoria. A lista vigente e completa está na B3.
Teva Tesouro Selic
Reenquadrado de 15% para 25% em fev/2024, após a Secretaria do Tesouro Nacional definir que carteiras lastreadas em Tesouro Selic têm prazo de repactuação de 1 dia. Fato relevante do administrador.
MarketVector Brazil Treasury 760D
Carteira mista de LFT e NTN-B longa; prazo médio acima de 720 dias.
Teva ITBR Liquidez
Carteira mista de LFT e NTN-B longa.
Teva ITBR Selic LP
Índice Tesouro Selic B3
Teva LFT Curto Prazo
Índice Teva Tesouro Selic
Índice Tesouro Selic Low Turnover B3
Teva ITBR Liquidez
Carteira mista de LFT e NTN-B longa.
Teva ITBR Selic Balanced
Carteira mista de LFT e NTN-B longa.
Teva ITBR Selic LP
Renda Fixa Pré
Índice DAP5 B3
Teva ITBR Letras Financeiras DI
Índice Letra Financeira S1 DI B3
Índice de Letras Financeiras ANBIMA
Teva Tesouro IPCA 0 a 4 anos
IT NOW IMA-B 5 P2
BTG Pactual IMA-B 5 P2
BTG Pactual IMA-B 5
B-Index IMA-B 5 P2
Teva ITBR Tesouro IPCA 2 Anos
Teva ITBR NTN-B 2035
ITBR IPCA Dynamic Yield Selection
Teva ITBR IPCA 95/5
ITBR IPCA 5 Anos
Material de terceiros descreve o produto como isento de IR para pessoa física. Não confirmado: carteiras de título público não gozam da isenção aplicável a debênture incentivada, CRI e CRA. Conferir no regulamento antes de considerar.
IT NOW IMA-B
ETF Bradesco IMA-B
BTG Pactual IMA-B
IT NOW IMA-B 5+
ETF Bradesco IMA-B 5+
Teva IPCA Ultra Longo Convexity Enhanced
Teva ITBR IPCA Rendimento
Teva ITBR NTN-B 2035
Teva ITBR NTN-B 2050
Teva ITBR NTN-B 2060
NTN-B vencimento 2030
NTN-B vencimento 2035
NTN-B vencimento 2045
NTN-B vencimento 2050
NTN-B vencimento 2060
IT NOW IRF-M P2
IDkA Pré 2A
Teva ITBR Pré 5 anos
Teva ITBR Pré 5 anos
IRF-M P2
Teva Debêntures DI
S&P/B3 Debêntures DI-IPCA
Teva Debêntures Ultra Qualidade DI
Índice B3 Debêntures AAA DI
Bloomberg US Aggregate Bond
Bloomberg Global Agg ex-USD
ICE U.S. Treasury 7-10 Year Bond
iBoxx USD Liquid Investment Grade BRL
iBoxx USD Liquid High Yield BRL
A faixa de IR está informada em 10 dos 55 fundos. Nos demais, a fonte não trazia a informação — e a FORE não deduz enquadramento tributário a partir do índice ou do nome do produto.
Compilação com fins informativos, sem data de referência por registro. A faixa de imposto de renda e a taxa de administração aqui exibidas foram citadas em material de terceiros e NÃO foram verificadas pela FORE no regulamento ou na lâmina de cada fundo — não constituem apuração, verificação ou opinião da FORE. Onde consta "não informado", a informação não estava disponível na fonte; a FORE não infere enquadramento tributário a partir do nome, do ticker ou do índice de referência. A alíquota de um ETF de renda fixa decorre do prazo médio de repactuação da carteira, apurado pelo próprio fundo nos termos da Lei nº 13.043/2014 e da Portaria MF nº 163/2016, e pode mudar se a composição da carteira mudar — o enquadramento não é um atributo permanente do produto. Taxas de administração mudam sem aviso. Confirme todos os dados no regulamento e na lâmina, junto à instituição intermediária e com seu contador, antes de investir. Esta tabela não constitui oferta, recomendação ou análise de valores mobiliários. A lista completa e vigente de ETFs de renda fixa está disponível na B3.
O ETF é uma peça. A carteira é o sistema.
A FORE analisa investimentos em conjunto com objetivos, liquidez, tributação, sucessão e riscos patrimoniais. O ponto de partida não é escolher um ticker, e sim definir a função de cada recurso dentro de uma Política de Investimentos.
Fontes
Este material possui caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui oferta, recomendação, análise de valores mobiliários ou promessa de rentabilidade. Exemplos e simulações são simplificados e não consideram todas as características de um investimento ou investidor. Rentabilidade passada não representa garantia de resultados futuros. Antes de investir, leia o regulamento, a lâmina e os documentos do produto e avalie sua adequação ao perfil, aos objetivos e à situação patrimonial e tributária. Conteúdo revisado em 25/08/2026.
Perguntas frequentes
Dúvidas frequentes sobre ETFs de renda fixa, tributação e liquidez.
